blog

Quanto eu ganho em relação a outros designers

por Denise Saito

Última atualização

07 de Junho de 2022

Disclaimer: Esse post contém altas doses de transparência e sinceridade. Meu objetivo é compartilhar conteúdos relevantes, que ajudem você a entender o valor do seu trabalho, não esfregar na cara dos outros quanto eu ganho. Sei que minha realidade tá muito longe da média do Brasil e tenho consciência que o que apresento aqui pode não ser um retrato fiel da minha profissão e da nossa sociedade.

Você deve ter visto esses números aqui e pensado "Será que todo designer ganha isso?" ou "Ela que tá ganhando muito ou eu que tô ganhando pouco?". Bom, eu não sou pesquisadora nem vim aqui pra falar de um panorama geral da situação das profissões no Brasil mas fiz uma mini pesquisa com alguns designers próximos pra entender onde eu me encaixo dentro do mercado.

Antes de tudo, preciso fazer uma observação: a amostragem dessa pesquisa foi super reduzida e bastante enviesada. Eu estou inserida num contexto privilegiado onde as pessoas ganham bem e não necessariamente refletem a realidade do Brasil. Considerei apagar este artigo pra não passar informação errada, mas acho importante mostrar que essa realidade existe em algum lugar. Os números a seguir são referentes ao ano de 2020.

Me mostre o dinheiro

Pessoa #1
Idade: 30 anos
Cidade: São Paulo
Cor: branca
Gênero: homem cis homo
Tempo de carreira: 11 anos
Tempo como freela: 7 anos
Tamanho clientes: P, M
Valor hora: R$200
Faturamento médio: privado
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$27.000
Salário: R$8.100
Pessoa #2
Idade: 30 anos
Cidade: Rio de Janeiro
Cor: branca
Gênero: homem cis hétero
Tempo de carreira: 15 anos
Tempo como freela:
Tamanho clientes: M, G
Valor hora: não cobra por hora
Faturamento médio: R$30.000
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$30.000
Salário: não tem
Pessoa #3
Idade: 26 anos
Cidade: São Paulo
Cor: branca
Gênero: mulher cis hetero
Tempo de carreira: 7 anos
Tempo como freela: 1 ano
Tamanho clientes: P, G
Valor hora: R$85
Faturamento médio: R$9.500
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$4.000
Salário: R$3.000
Pessoa #4
Idade: 39 anos
Cidade: São Paulo
Cor: branca
Gênero: mulher cis hetero
Tempo de carreira: 16 anos
Tempo como freela: 6 anos
Tamanho clientes: P, M, G
Valor hora: R$113
Faturamento médio: R$16.000
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$11.000
Salário: não tem
Pessoa #5
Idade: 28 anos
Cidade: São Paulo
Cor: negra
Gênero: homem cis homo
Tempo de carreira: 10 anos
Tempo como freela: 2 anos
Tamanho clientes: M, G
Valor hora: R$275
Faturamento médio: R$30.000
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$10.000
Salário: R$8.000
Pessoa #6
Idade: 36 anos
Cidade: São Paulo
Cor: parda
Gênero: homem cis homo
Tempo de carreira: 17 anos
Tempo como freela: 17 anos
Tamanho clientes: P, M, G
Valor hora: R$200
Faturamento médio: R$5.000
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$12.000
Salário: não tem
Pessoa #7
Idade: 24 anos
Cidade: São Paulo
Cor: branca
Gênero: homem cis hetero
Tempo de carreira: 5 anos
Tempo como freela: 4 anos
Tamanho clientes: P, M
Valor hora: não cobra por hora
Faturamento médio: R$5.500
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$6.000
Salário: R$6.000
Pessoa #8
Idade: 30 anos
Cidade: São Paulo
Cor: branca
Gênero: mulher cis hetero
Tempo de carreira: 10 anos
Tempo como freela: 2 anos
Tamanho clientes: P, M
Valor hora: R$150
Faturamento médio: R$8.000
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$10.000
Salário: R$8.000
Denise
Idade: 30 anos
Cidade: São Paulo
Cor: amarela
Gênero: mulher cis bi
Tempo de carreira: 12 anos
Tempo como freela: 6 anos
Tamanho clientes: P, M, G
Valor hora: R$250
Faturamento médio: R$13.600
Quanto cobra num projeto de identidade visual: R$12.000
Salário: R$9.000

O que podemos concluir desses números?

1. O valor hora varia bastante, e muita gente não cobra por hora.

Dentre 9 pessoas, 6 relataram não cobrar ou não gostar de cobrar por hora. Eu não cobro por hora, cobro por projeto, por isso me incluí aí. Esse valor hora é o que cobro quando me obrigam a dar um valor hora.

2. O faturamento médio varia bastante.

Isso vai depender do tamanho dos clientes, de quanto a pessoa trabalha em geral e de quanto cobra por projeto.

3. O preço de um projeto de identidade foi constante

Escolhi um tipo específico de projeto pra usar como parâmetro de comparação, mas é difícil de saber o que cada um considera como um projeto de identidade completo. O preço em geral foi constante mas temos uma discrepância bem grande entre as pessoas 3 e 7 e o resto do grupo. Meu palpite é que são profissionais com menos tempo de carreira e ainda estão ganhando experiência e subindo seus preços.

4. A maioria não tem salário fixo

É difícil saber o que cada um considera um salário e como chegou nesse número, por isso é até difícil considerar essa média. Os únicos que têm 13° são a pessoa 1, 5 e eu.

5. Mesmo meu valor hora sendo mais alto, meu faturamento tá na média.

Isso acontece porque, como conto aqui, eu trabalho poucas horas por dia. No fim do dia, e do mês, eu acabo ganhando quase o mesmo que meus colegas. A diferença é que eu trabalho menos e ganho mais por hora, enquanto eles trabalham mais e ganham menos por hora.

6. A maioria cobra considerando tamanho do cliente e o escopo do projeto.

Outros fatores que entram na conta são prazo de entrega, tamanho de exposição, despesas com a empresa e tipo de demanda.

O que as pesquisas de verdade dizem

A maioria das pesquisas que eu consegui falando sobre faturamento entre os freelancers são americanas, com exceção de uma da Rock Content de 2019. A mais recente é da Payoneer, empresa americana. Dá pra ter ideia mas não dá pra comparar totalmente com o mercado americano por razões óbvias. Mas vamos lá. Resumindo, foi isso que eu percebi.

1. A minha lista de respondentes tá ganhando muito mais que a média.

No Brasil, a média de ganhos entre os freelas é de R$1.434,11 por mês (dados de 2020), sendo que 55% ganha até um salário mínimo. O meu palpite é que todos respondentes estão dentro de uma bolha de pessoas bem assalariadas do eixo Rio-SP.

2. Quanto mais experiência, mais dinheiro.

Meio óbvio, né. Nos EUA, a média de valor por hora vai aumentando à medida que a idade avança. Entre 25 e 34 anos, 19 dólares por hora. Entre 35 e 44, 24 dólares por hora. Entre 45 e 54, 27 dólares por hora. Entre 55 e 64, 36 dólares por hora. Isso é inegável, mais experiência te traz mais reconhecimento e habilidades no trabalho.

3. Design tá longe de ser a área mais bem paga.

As profissões com maior valor hora são gerente de projetos (USD43,5), produtor multimídia (USD26), vendas (USD36,5), programação (USD33,5) e marketing (USD24). Designer estão na posição 9 do ranking e ganham em média USD20 por hora.

4. Mulheres ganham menos que homens.

Nada de novo por aqui, né? Em algumas profissões, como gerente de projeto, a diferença é absurda (USD19 para mulheres e USD34 para homens). No geral, homens ganham USD21,67 por hora e mulheres USD18,15.

5. Freelancers fulltime ganham mais que freelas parciais.

Quem é exclusivamente autônomo precisa garantir o mês inteiro dessa forma, enquanto parciais só estão complementando uma renda. A diferença é de USD22 para profissionais fulltime e USD19 para parciais.

No vídeo ali em cima eu mostro essa planilha com comparações entre designers estrangeiros. Lá fora tem bastante essa iniciativa de transparência salarial mas aqui ainda é um pouco mais raro.

Se você quer saber mais quanto outros profissionais ganham, e acabar com esse silêncio velado sobre o tema, participa dessa pesquisa pra abrirmos o diálogo sobre dinheiro. Quanto mais abertamente falarmos sobre isso, menor será a especulação salarial e mais conseguiremos pagamentos justos. O resultado você vê aqui.