entrevista

Matheus Leston

Creative Technologist

29 de Abril de 2021

Denise Saito: Oi, Matheus, pode começar se apresentando e contando um pouquinho da sua trajetória profissional até os dias de hoje.

Matheus Leston: Minha trajetória profissional e o que eu faço é fruto de uma conjuntura meio maluca, mas que eu acho legal porque, quando olho pra trás, consigo entender como tudo fez sentido. 

Hoje em dia eu me considero um creative technologist, termo que conheci graças a um post seu, músico, artista e desenvolvedor. Juntando essas áreas, tenho um trabalho pessoal de arte, que normalmente envolve música e tecnologia. Geralmente, os projetos são mais visuais, com música, sempre tentando amarrar as linguagens da arte e da tecnologia. Por conta do meu interesse nessas áreas e dos meus trabalhos pessoais, esse também acabou virando meu trabalho.  

No início, eu comecei a ser convidado por artistas para desenvolver e executar projetos que envolvessem programação. Hoje eu tenho o Bloco, que é um estúdio que desenvolve projetos sonoros, de arte generativa, instalações interativas, enfim, coisas neste âmbito de arte e tecnologia, para marcas, eventos, artistas. Além do Bloco, também trabalho no Estúdio Guto Requena, como diretor de criação do Juntxs, que é uma lab que desenvolve experiências interativas. 

Um ponto relevante na minha história é que, pelo fato do meu pai ser programador, eu sempre tive computador em casa, aprendi a programar coisas básicas muito cedo e sempre gostei de programar. Nesta área, sou autodidata. 

Eu sou músico desde pequeno e sempre achei que essa seria a minha carreira da vida, mas não foi algo em que eu investi muito até o colegial, época em que fui descobrindo a música experimental e, então, caí na programação de novo, passei a ouvir música eletrônica experimental. E, veja só, na verdade, eu sou formado em Letras.  


Considerando que você tem várias vertentes de trabalho, a arte, a música, a programação, como começou a desenvolver e unir essas habilidades profissionalmente? 

Minha formação mesmo foi no campo da arte. Embora eu tenha estudado Letras, logo no primeiro ano da faculdade eu comecei a trabalhar em instituições de arte. Trabalhei muitos anos no Tomie Ohtake e na Bienal, lugares onde vivi experiências que deram essa formação de arte pra mim, talvez muito mais do que na faculdade. 

Até que, em um certo momento, eu percebi que estava trabalhando próximo do que eu queria, mas não exatamente com o que eu queria. Me demiti da Bienal e resolvi focar nessa carreira, que começou com a Orquestra Vermelha e foi se desenvolvendo com projetos de arte e tecnologia. Parece um pouco confuso, mas foi mais ou menos esse o caminho.   


Como é unir em trabalhos essas suas áreas de atuação, considerando que a gente vive num contexto em que as pessoas costumam demandar uma especialidade?

Eu acho que foi e continua sendo difícil. Ter foco é uma coisa difícil. Por uma questão de tempo mesmo, rolam questionamentos do tipo “O que eu vou fazer com o meu tempo? Vou focar em gravar um disco ou em estudar uma linguagem de programação?”. Mas, no meu caso, acredito que o caminho acabou se desenhando muito naturalmente, não sinto que o que faço é amarrado às áreas. Acho que se trata de entender como se fosse uma área só. 

Não é pensar que arte e tecnologia são coisas tão diferentes e distantes. Já existe até uma história da arte e tecnologia, e o meu interesse sempre foi nessa amarração. Então, o foco não está aberto em dois lugares, mas está na junção. Foi essa junção que eu sempre estudei. 

Obra de Guilherme Cunha - Dispositivo de Reflexão Psicomorfênica - Programação Matheus Leston (Bloco) 


Ter estudado linguagem de programação foi uma maneira de conseguir realizar essa conexão entre as partes. Conectar música e visualidade, arte e tecnologia. Tem uma coisa no fazer que é interessante. Eu não gosto muito desse argumento muito modernista, do tipo “um pintor tem que ficar pintando até entender a tinta”. Não sou muito fã disso, mas eu acho que quando você vai se imbricando no processo, vai atrás, mesmo que seja só da ferramenta, acabam surgindo formas, estética e tudo mais. 

De alguma maneira, existe uma discussão de entender a linguagem de programação como uma linguagem que, mesmo estando no nome e parecer uma obviedade, não é tão óbvio. Assim eu consigo manter a cabeça em algum lugar que faça algum sentido. 


“Não acho que a programação seja uma ferramenta, acho que é uma linguagem. Entender as coisas dessa maneira foi o que me permitiu ter algum foco, por mais que eu tenha muita dificuldade de escolher onde mirar, o foco é sempre essa junção. Assim eu consigo manter a cabeça em algum lugar que faça algum sentido.”


Para as pessoas começarem a entender um pouquinho melhor o que você faz, vamos trazer um exemplo de um trabalho seu, que exemplifica bem essa união, que é a Orquestra Vermelha. Conte um pouco como foi o processo inteiro, desde o momento em que você teve a ideia até começar a criar, de fato, a produzir e fazer essa performance. 

A Orquestra foi possibilitada pelo edital Rumos, do Itaú Cultural, e aconteceu num timing muito bom porque foi no período em que me demiti da Bienal. Era um desses projetos que você já tem a ideia da cabeça, mas que não está bem formulado, sabe? Tem uma ideia aqui ou ali, coisas que você está pensando, mas que, de fato, só se formalizam no momento que você tem um deadline, que é a melhor coisa do mundo, afinal você tem que sentar na cadeira e escrever o projeto, fazer orçamento e tudo mais. 

Quando a Orquestra surgiu eu já tinha uma pesquisa antes, fruto de um show anterior que se chamava “Ré”, que era meio que um caraoquê invertido. Eu sempre gostei muito da relação de “música acústica” e música eletrônica, mas nunca gostei dessa coisa de dar um playback numa base e cantar em cima, que era o que eu ouvia por aí. Então, pensei em fazer o contrário: construía a música ao vivo e a voz do “solista”, por assim dizer, já estava lá pronta.  A Orquestra surgiu como uma segunda etapa desse projeto.


“Eu já tinha a ideia e vontade de seguir esse estudo, mas não tinha muito um caminho claro do como fazer. O momento em que me inscrevi para o edital foi a fase de juntar os pedacinhos, como a ideia de gravar os músicos, a ideia da sombra dos músicos, que era uma coisa que eu achava muito fascinante.” 

O nome também era algo que já estava na minha cabeça há muitos anos porque uma artista, amiga minha, a Clara Ianni, fez um trabalho maravilhoso com umas cartas de War ampliadas. Ela tinha uma carta que dizia “O seu objetivo é destruir todos os exércitos vermelhos”, e eu fiquei com esse negócio de "exército vermelho” na cabeça e, em algum momento, isso virou Orquestra Vermelha. Esse nome ficou guardado durante anos pra eu usar. E surgiu esse momento. 


Na prática, o processo da Orquestra foi assim: fiz o edital, reuni as ideias e amarrei tudo conceitualmente. Porém, eu não tinha nenhuma música, não tinha nada da Orquestra. Foi aí que juntei todos os “trezentos” HD's que eu tinha espalhados por aí - porque todo mundo que trabalha com áreas de criatividade sabe o que é isso, de você começar uma ideia e abandonar por não saber onde focar -, enfim, juntei todos os micros fragmentos de música que eu tinha e falei “Pronto! São essas as músicas da Orquestra Vermelha”. Dei uma arrumadinha nas músicas e mostrei para os músicos. 


“Eu apresentava para um músico e falava ‘Improvisa em cima como você quiser’. Eu pegava o trabalho dele, editava, mostrava pro próximo, pedia ele criar em cima, editava, e o processo se repetia.”

 

Dividir o processo foi a maneira que usei para aprender a lidar com o término das coisas. Eu fui fazendo e descobrindo como eram as músicas no caminho. Depois, no fim, foi um processo de sentar e editar todo o material e escolher o que era legal e o que se encaixava. Mas estive muito aberto nessa etapa, sem querer controlar demais o que os músicos haviam trazido pra mim. 

Teve uma parte técnica, óbvio, que foi super complicada como, por exemplo, o fato de eu nunca ter tido experiência com LED. Quando eu fui usar as telas de LED, elas não bateram com a imagem, que desalinhou. Foi uma confusão, mas deu tudo certo no fim.  

Até que eu fiz uma coisa, até mesmo para usar esse material que tinha engavetado durante uns seis anos, que foi, no ano retrasado, lançar um disco da Orquestra Vermelha. 

Como funciona um edital? Acho que muitas pessoas devem ter essa dúvida. Explica pra gente.  

Antes, este edital que mencionei, o Rumo, do Itaú Cultural, tinha categorias e divisões, o que me possibilitou inscrever o projeto em categorias diferentes. Curiosamente, foi dentro do Rumos Cinema e Vídeo que eles abriram um edital que se chamava “Espetáculo Multimídia”, que caiu como uma luva no meu projeto. 

Neste caso, que era um pouco diferente, eles abriram uma chamada que dizia basicamente “olha, a gente quer projetos deste tipo” e eu só precisaria explicar conceitualmente o porquê do projeto ser interessante, o que ele traria de discussão, principalmente no campo da arte, dizer quem eu era, se já tinha algum trabalho desse tipo. Lembrando, que você não precisa ter uma carreira solidificada. Muitos dos editais, aliás, preferem que você seja um artista iniciante. 


Orquestra Vermelha - Foto: Filipa Aurélio 



Cada edital tem um recorte diferente, mas, basicamente, é preciso fazer uma justificativa teórica e orçamentária para dizer “o trabalho é isso e vai custar tanto por conta disso e disso”. Tem editais que precisam de comprovação de custos. Inclusive, em alguns deles, aconselha-se incluir um contador no projeto, porque será preciso fazer a contabilidade dos gastos. No caso específico deste, da Orquestra Vermelha, não foi preciso porque o valor já estava especificado, com uma verba para produção e outra para montagem. Nos restava saber se o projeto cabia dentro desse valor ou não. 

Eu recomendo trabalhar com outras pessoas porque, dependendo do edital, a aplicação é muito difícil. Existem pessoas que trabalham especificamente com isso e já sabem que os editais têm particularidades muito claras. É possível você se embrenhar, mas é uma coisa complexa. Então, eu recomendaria ter alguém ajudando porque facilita muito. 

Outro trabalho, que eu acredito que quem é de São Paulo, do rolê, da música eletrônica, os designers da casa também, já devem ter visto, que é o do Caracol Bar, que tem uma identidade visual maravilhosa, criada por um amigo nosso, o Finotti. Conta um pouco como foi a sua participação nesse projeto e na criação da identidade. 

Foi super legal, um convite muito massa do Finotti, que é um designer incrível. Acho que, na época, ele estava trabalhando com o Mateus Acioli, que o ajudou a desenvolver essa identidade. Eles chegaram nessa ideia de que a identidade do Caracol não seria uma imagem, mas um sistema, uma lógica que permitiria construir várias imagens. Algo que sempre me fascinou muito porque, claro, programador gosta desse tipo de coisa, projetos em que o sistema faz parte, em que, como eu falei, a programação é a linguagem. 

Eles criaram uma lógica que consiste em quatro formas, se eu não me engano, sete maneiras de combinar as formas, nove cores… não lembro bem dos números, mas algo desse tipo.

O Finotti, que já me conhecia pessoalmente, conhecia os meus trabalhos e sabia dessa minha área de programação, me falou “Matheus, eu comecei a fazer, mas descobri que são muitas imagens. Queria saber se tem como fazer um batch no photoshop e se você consegue me ajudar a fazer alguma coisa gere todas as imagens e depois salve numa pasta”. 

Ele me passou os números das combinações e eu percebi que era uma quantidade que geraria muitas combinações possíveis, algo na casa dos trilhões! Não tinha como fazer todas manualmente. Como ele foi muito aberto pra eu sugerir alguma solução, então, eu tive a ideia de construir um aplicativo que gerasse essas imagens. Ele me passou a lógica, os desenhos, as cores etc. 


Design Sometimes Always, Programação Bloco Studio Matheus Leston


Ao invés da gente gerar imagens já fechadas, criamos o programa, que tem um uso muito simples: você aperta a barra de espaço e ele gera uma imagem, aperta enter e ele exporta um png. Bem simples, pra ninguém ter que ficar mexendo, editando cor ou pegando aleatoriamente. Afinal, a gente sabe que, quando se trabalha com sistema, você acaba tendo as suas preferências, as escolhas nem sempre são aleatórias. 

A grande graça do Caracol é que eles criavam e publicavam - não sei se ultimamente segue assim, por causa da quarentena - um pôster por dia dos DJs que tocavam no bar. Manualmente, seria uma quantidade de produção muito intensa. Se fosse pra abrir o Illustrator toda vez que precisasse fazer um pôster, ia ser um drama. Com o programa, dá pra fazer uma imagem 1080 x 1080 em 15 segundos. 

Design Sometimes Always, Programação Bloco Studio Matheus Leston



A minha participação foi essa. Eu não me envolvi na concepção da identidade visual, mas nessa parte técnica para resolver a identidade, por assim dizer. Por conta da identidade do Caracol, esse aplicativo ficou até “famosinho”, porque ela não tem cara de digital, de tecnológica, parece uma estamparia ou algo do tipo. 

Eu acho legal essas amarrações, primeiro por ter sido uma solução simples, elegante e um código super pequenininho e enxuto para um problema gigante com, sei lá, trilhões de saídas e, segundo, por ter virado uma marca registrada do bar. Não foi à toa que a identidade acabou ganhando o Latin America Design Awards. Foi super legal! Tenho orgulho de ter participado, por mais que a minha participação tenha sido, talvez, pequena, mas fez parte desse grande processo.


"O creative technologist é a pessoa que ajuda a desenvolver e criar as ideias, mas também aquele que executa, porque as ideias estão atreladas à execução."


Hoje você está trabalhando no Estúdio do Guto Requena, mas depois de passar muito tempo como freela. Como foi essa experiência?  

Eu trabalhei durante quase dez anos como freelancer e deu tudo certo. Tive fases zigue e zague de dinheiro, de projetos, uns projetos maiores, outros menores, poucos projetos, muitos projetos. E teve aquela coisa que a gente sabe, de freelancer que tem dificuldade de se organizar em muitos momentos, como trabalhar 72 horas em um dia e no outro menos duas horas por dia. 

Teve também muito da minha parte em tentar encontrar os caminhos, de me questionar “Será que o caminho é mais por esse ou por aquele lado? Onde será que eu vou investir? Quando falar com tal pessoa?” e de ir atrás também do mercado, claro, porque você precisa pagar suas contas. 

Com esse seu perfil, atuando em algo que não é tão recorrente no mercado, você acha que ser freela foi uma forma de conseguir trabalhar porque não tinha oportunidades para trabalhar nessa área?

Acho que hoje a coisa está mais acomodada, até porque agora existe o termo creative technologist - o que é a glória! -, mas ao longo desses dez anos, o que eu sentia era que as pessoas não entendiam, de fato, o que é meu trabalho. Isso aconteceu muito. 


“Não acho que faltavam oportunidades ou campos para agir, pelo contrário, sempre existiram. Difícil era entender a hora certa de contactar uma pessoa para algum projeto, saber se aquela seria a pessoa certa.” 


Até mesmo por isso, os trabalhos para os quais mais me chamavam também foram os trabalhos que eu mais repassei, porque eram de pessoas que entenderam que podiam me chamar para o que quer que fosse. Além disso, elas sabiam que se eu não pudesse resolver, saberia indicar alguém que resolvesse. Penso que até hoje não fica muito claro exatamente o que eu faço. Até porque não é claro mesmo. Acho que faz parte do trabalho poder se embrenhar em alguns campos que você não conhece. 

Na minha cabeça, seria praticamente impossível achar um trabalho fixo, num lugar fixo que tivesse oportunidade para fazer o que eu faço. Me parecia uma coisa muito difusa: em um dia eu estava ajudando uma artista a criar um projeto para fazer música com impressoras, no outro fazendo iluminação controlada por Twitter para uma festa. Eu pensava “Que carreira é essa que junta essas duas ideias?”.

Foi depois de ter feito um trabalho como freelancer pro Guto, que a gente entendeu que tinha esse campo dentro do Estúdio. Lá existem projetos de muitos tamanhos, com possibilidades de vários caminhos, alguns de cenografia, outros de arquitetura, residencial, escritório, enfim, tem uma gama ampla de direções, o que permitiu a minha presença fixa lá, como um trabalho fixo. 



Afora, falando de um campo muito pessoal, tudo isso aconteceu no mesmo período que começou a pandemia, na fase em que, de fato, muitos dos meus trabalhos, que eram baseados em aglomerações, caíram. Foi em um momento muito oportuno por duas razões: primeiro pelo timing perfeito, e estou super feliz de estar trabalhando lá, e, segundo, porque entendi que um campo que parecia não ter um lugar institucionalizado, na verdade, tem. Mudei muito de opinião, acho que super existe este lugar, mesmo que ele seja difuso.

No dia em que eu fiz o post falando o que é creative technologist, algumas pessoas falaram “Eu queria muito trabalhar com isso, mas eu não encontro vaga”. O que você diria para essas pessoas?

Sendo muito honesto, pra mim é um pouco difícil dar esse tipo de conselho porque o nome da profissão veio depois. Como eu te falei, descobri este termo pelo post que você fez, por exemplo.

Sempre fui um cara interessado em arte e tecnologia e também muito focado nessa amarração. Mas, até então, eu tinha dificuldade de me explicar. 

“Eu acho que, se hoje a pessoa tiver a clareza de que é isso que ela quer fazer, quer ser creative technologist... show, maravilhoso! Ela já está dez passos além do que eu estive há dez anos.”   


No entanto, embora a gente esteja falando de foco, é preciso ter muito cuidado para não se tornar um profissional generalista. Eu acho que depende muito de como você quer atuar, óbvio. Mas o que eu vejo, pelo mercado mesmo, as pessoas que atuam nesse campo são tecnicamente focadas em certas coisas, por mais que façam muitas. 

Sugeriria mergulhar em alguma coisa, porque isso não vai te limitar. Eu, por exemplo, uso uma linguagem de programação que se chama "Max" e praticamente só sei ela. Porém, sei fazer tudo o que preciso com ela, mesmo em projetos diferentes. O Caracol foi feito com Max e um pedaço da Orquestra Vermelha também, por exemplo. Esses dois projetos têm um desenvolvimento de linguagem, um desenvolvimento formal. 

O importante, talvez, seja ter esses interesses particulares, pessoais, antes de mais nada. Ou você pode ficar pensando "Preciso saber um pouquinho de Java script, um pouquinho de web, um pouquinho de design, um pouquinho de arte" e se perderá nesse campo. 


Future Forest, Programação Bloco Studio Matheus Leston, foto Junior Viana 



Pela minha experiência, o creative technologist é a pessoa que ajuda a desenvolver e criar as ideias, mas também aquele que executa, porque as ideias estão atreladas à execução. Senão você entra em uma lógica na qual as coisas não conversam. É fundamental saber executar as ideias, ter um campo de estudo, entender os caminhos e, claro, não ter medo de dizer que você precisa de outra pessoa para fazer um projeto. Não são todos os projetos que eu faço sozinho. 

É preciso saber também se o trabalho faz sentido pra você e onde você pode atuar.  Às vezes, entendo que algo tem a ver comigo, mas não tem a ver com o que eu faço, então, repasso o trabalho para outra pessoa. Embora creative technologist seja um nome amplo, em que cabem muitos interesses diferentes, acho importante você manter uma unidade.

"É preciso saber, pelo menos um pouco, para onde você quer ir e enxergar quando você está se afastando daquilo que você quer. A trajetória não precisa ter uma linha reta 'traçada por um compasso', do tipo “Eu vou daqui pra lá”. Você tem que ir chegando perto."

A partir da sua perspectiva e experiências, o que acha que foi mais importante para você chegar ao lugar que está hoje?

No campo pessoal, eu acho que tem uma certa obsessão. Não recomendo essa obsessão, mas acho que, de alguma maneira, pessoas que trabalham com criatividade costumam tê-la. O difícil é encontrar um limite saudável. Algo que me ajudou muito foi ter um interesse muito claro, mas não uma rota muito clara. Eu sempre soube exatamente o tipo de coisa que me interessava, como criar um código que integra outros elementos e, com isso, gerar uma imagem maravilhosa. Isso é o tipo de coisa que me dá tesão e que eu quero fazer. 

Agora, no campo profissional - que nunca tive muito claro -, eu diria que foi me abrir para as oportunidades e saber onde e quando migrar. Ter alguma adaptabilidade é interessante porque, por mais que você não tenha um objetivo claro, as coisas acabam acontecendo naturalmente. 


“Quando eu olho hoje, de trás pra frente, vejo uma carreira que faz sentido.”


É preciso saber, pelo menos um pouco, para onde você quer ir e enxergar quando você está se afastando daquilo que você quer. A trajetória não precisa ter uma linha reta “traçada por um compasso”, do tipo “Eu vou daqui pra lá”. Você tem que ir chegando perto. Foi por isso, inclusive, que eu me demiti da Bienal. Achei que estava chegando perto do que eu queria, mas, a partir de um certo momento, percebi que estava em um caminho que estava me deixando longe. 

Num âmbito mais geral, eu indicaria ver muitas coisas. Porque esse é um campo de trabalho que está mudando o tempo inteiro, todos os dias. Eu tenho uns amigos com a mesma obsessão que comentei, que trabalham nesse campo, para os quais eu mando um link de alguma novidade e a resposta, quase sempre, é “Já vi”.  Ou eles mandam um link e eu falo “Já vi” também. Porque tem uma coisa de consumir muita informação, de vários lugares e, ao mesmo tempo, estar ligado nas coisas de arte e tecnologia, mas também em outras coisas, como a câmera nova que a Fuji lançou, por exemplo. 

Por conta do meu interesse pessoal nessas áreas, essa busca é muito natural pra mim. O difícil é delimitar até onde estou fazendo isso por trabalho ou por hobby. Mas eu acho que você tem que se permitir se abrir para esses múltiplos interesses mesmo, sem ter muito medo. 


Eu acho maravilhoso o seu trabalho. É o tipo de coisa que você não faz ideia de como acontece, mas é incrível! É isso que eu acho que é o mais legal. 

Ah, obrigado! Te agradeço demais. Mas isso é o mais legal, porque eu sinto tesão em como funciona. Não é file, não é exposição do file, não é Exposição Internacional de Linguagem Eletrônica. Então, se você olhar e tiver uma experiência... show! Não precisa saber como foi feito e pouco importa como foi feito. Mas, pra mim, que sei como foi feito, é muito legal! É essa a junção que eu acho importante no trabalho.


Direção executiva e produção: Denise Saito / Transcrição, edição de texto e revisão: Erica Amorim / Edição de vídeo: Eloi Leones / Direção de arte: Pedro Abreu / Direção criativa: Thays Mendes

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